Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

111 Palavras

Os dias contados em 111 palavras

Necessidade

por João Leal, em 19.07.17

O pequeno piscou os olhos ao sair. A rua estava branca de sol. Levado pela mão, atravessou a rua com o pai. Entraram no café. À sua frente, na montra de vidro, havia bolos, chocolates e latas multicoloridas. À sua direita estava uma máquina com brinquedos dentro de bolas de plástico. O pai levou-o para uma mesa e sentou-o numa cadeira. Com o tampo à altura do nariz, ficou a ver o pai a mexer o café com uma mão enquanto virava a página do jornal com outra. Na televisão por detrás do pai, passavam imagens de ambulâncias. Tinha 2 anos e meio. Já não faltava muito para começar a falar.

Gotas

por João Leal, em 18.07.17

As pequenas gotas no para-brisa podiam estar a anunciar outras maiores. Do rádio saía com certeza música, mas ela não o poderia saber. Atormentada pelo impulso que a levara a conduzir até ali, resistia à agitação frenética que crescia na sua mente. Fechou os olhos e bateu com as mãos no volante. Uma, duas, três vezes. Pegou de novo no telemóvel, digitou um número e, passados uns segundos, disse «Sou eu. Estou em frente ao Aldi, quase a entrar. Acho que não aguento. Preciso de beber. Podes vir ter comigo? Sim. Não. Prometo. Fico à tua espera. Obrigado. Obrigado…» Só tinha de aguentar mais um pouco. Chovia agora com mais força.

Rotunda

por João Leal, em 12.07.17

Final de tarde. Existem três árvores na placa central da rotunda. As pessoas estão alinhadas junto ao muro. Algumas olham indiferentes para o que as rodeia, pensando, talvez, no jantar ou num assunto relacionado com o emprego. Outras conversam ao telefone ou com alguém ao lado. Uns jogam bolhas e outros enviam mensagens de texto. Há um vento suave que faz abanar as folhas das árvores. Espalhados ao acaso, movendo-se quando os autocarros não conseguem passar, os automóveis esperam por alguém que chegará num dos próximos comboios. A escola acabou. Não há miúdos na fila. É Verão. Já não falta muito para o nosso autocarro. Existem árvores, mas ninguém as vê.

Final

por João Leal, em 03.07.17

A porta abriu-se à sua frente. Ao seu lado, o guarda sorriu-lhe enquanto lhe colocava a mão no ombro. – Tschüss, Fernandes. Ele acenou com a cabeça, sorrindo também. Durante duas décadas aquele homem tinha feito parte do seu dia-a-dia. Daí a quatro passos já não seriam prisioneiro e guarda. Seriam amigos? Talvez não, mas Herr Bengelsdorff tinha feito questão de o acompanhar nesses últimos momentos.  Ao dar os quatro passos o vento matinal bateu-lhe na cara, recebendo-o naquele planeta de homens livres acerca do qual haveria tanto agora a reaprender. O céu nublado não deixava ver o sol. Ao fechar-se atrás dele, a pequena porta blindada executava o fim da sentença.

Árvore

por João Leal, em 01.06.17

O campo abria-se, largo de longe e verde de água abundante até ao sopé dos montes. As árvores, esparsas e vigilantes, estavam maiores do que se lembrava. Pássaros enlouquecidos de fome faziam voos rasantes às ervas altas. Do chão vinha a frescura do orvalho. Tomou a direção de uma das árvores e subiu-a com destreza. Sentou-se num ramo forte e quebrou alguns outros mais pequenos que lhe tapavam a vista. Verificou as iniciais infantis esculpidas no tronco e sorriu. Um risco de luz ia engrossando e clareando o céu. Notou o som do riacho onde ia caçar rãs e libelinhas. Começaria por ali, pelo sol e pelos campos da sua infância.

Inocência

por João Leal, em 26.04.17

Aproveitou a manhã de feriado para ir passear à praia. O filho corria na areia, eufórico, deslumbrado pelas ondas. Abraçado à mulher, ele seguia atrás, satisfeito. De súbito, um rotweiller surgiu vindo da duna. Foi demasiado rápida a aproximação ao miúdo para que ele pudesse reagir. O miúdo estacou. Tinha pavor a cães. Um homem de meia-idade apareceu, chamando o cão que andava à volta da criança paralisada de medo. «Ele não faz mal», disse o homem andando devagar, despreocupado. Ao chegar a casa pesquisou a raça na web. Como é que alguém achava normal viver sob o mesmo teto que uma dentada potencial de 160 Kg por cm2? Não percebia.

Hesitar

por João Leal, em 20.04.17

Quando finalmente chegou ao multibanco, um senhor idoso tremente hesitava em frente à máquina. Uma tecla, pausa para tentar ler o que estava no ecrã, um par de teclas, outra pausa. Em vista da folha com a conta da água na mão do homem, maldisse a sua sorte. Inevitável, o seu rancor mental virou-se contra o idoso. Olhou a nuca do homem, fulminando-o. Reparou então em como ele se parecia com o seu tio, alguém que tivera uma vida cheia de lutas e vitórias, tinha estado na guerra e vivera sob uma ditadura. O rancor desapareceu de imediato, esperando pacificamente os dez minutos seguintes de hesitações agradecido a toda uma geração.

Espetáculo

por João Leal, em 30.03.17

A colega perguntou-lhe se percebia de telemóveis e mostrou-lhe o ecrã do iphone com uma fotografia sua com um cão ao colo. Queria colocá-la no mural, porque o seu bebé, o cão de pelo encaracolado, tinha feito anos. Era uma pessoa nervosa com longo histórico de depressões. Usava o cabelo pintado de louro, roupas caras, o marido conduzia um BMW de executivo e o filho já tivera asperger, crises de ansiedade, hiperatividade, indícios de diabetes e tinha sido uma criança índigo e sobredotada. Ele respondeu-lhe que não percebia de telemóveis. Ela pareceu não o ouvir e disse que queria tornar a fotografia mais bonita, espetacular, e perguntou-lhe se conhecia alguma app.

Brancura

por João Leal, em 29.03.17

Lembrou-se então melhor. A estrada de pó branco levantado à passagem dos pés. As cigarras cantavam nas árvores, vigilantes. A erva ressequida e amarela, imóvel em direção ao céu sem nuvens, como numa prece à espera de chuva que, na melhor das hipóteses, só chegaria quase dois meses depois. A canícula das duas da tarde havia recolhido as pessoas para o interior fresco das suas casas caiadas. Só eles os dois pareciam habitar o mundo enquanto se dirigiam para o café à beira da estrada. Iam falando enquanto caminhavam. A boca seca de pó degustando em imaginada antecipação a imperial gelada. Tinham sido bons tempos, esses passados no Alentejo naquele agosto.

Sobremesa

por João Leal, em 27.03.17

O reencontro foi o de velhos amigos. Tinham passado cinco anos e ela parecia-lhe a mesma pessoa. O mesmo sorriso, os mesmos modos cheios de humor. Ainda aquela luminosidade que, na verdade, sempre o incomodara. Bem vistas as coisas, tudo se tinha tornado mais difícil para si desde que rompera a relação com ela. Referiu-o à sobremesa. Encantadora, agradeceu o elogio e depois lembrou-lhe a situação que levara a que tivesse decidido sair de casa. Afinal, fora ela que quisera acabar tudo e não ele. Surpreendido, lembrou-se e uma raiva antiga cresceu no seu peito, alimentada por uma traição que ele, afinal, tudo fizera por esquecer. Quase que o conseguira. Quase.