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111 Palavras

Os dias contados em 111 palavras

Recrutamento

por João Leal, em 31.01.17

Patrícia era simpática, dominava o Photoshop e tudo o mais. Para Ana tinha sido uma boa entrevista. Só faltava verificar uma coisa, o mais importante. Quando chegou ao gabinete, fechou a porta e abriu o Facebook. Ela tinha gatos, muito positivo, mas na galeria de imagens estava uma fotografia dela em uniforme num jogo de paintball. Quando lhe telefonaram dos Recursos Humanos, Ana disse «Vamos ficar com a outra, a Adriana Lopes». Apesar de a Patrícia ser melhor candidata, preferia não ter de lidar com ela. Não iria correr bem. Já com Adriana, a das viagens pelo mundo, apesar do pior currículo, as conversas na pausa para café seriam mais interessantes.  

Propinas

por João Leal, em 30.01.17

O pitbull escorregara ao sair da banheira. Ficara semi-paralisado das patas traseiras. Deveria ter sido só um banho para refrescar antes do passeio matinal. Ela sentia-se responsável. Não saíra de Massamá nas férias para poupar. O Filho estava quase a acabar a faculdade e só faltavam cerca de dois mil euros de propinas. Agora a conta da cirurgia, dos medicamentos e dos exames já tinha ultrapassado o valor do semestre universitário em falta. Rodou a cabeça, tentando estalar o pescoço dorido. Pedira o colchão de campismo à mãe e dormira nessa noite no chão da sala, ao lado do cão convalescente, velando o seu sono. Ambos pareciam estar a recuperar bem

Pedido

por João Leal, em 27.01.17

Enquanto se preparava para fumar, pensou no rapaz, recém-admitido no centro de reabilitação, a lutar, a passar um mau bocado, com o cérebro em papa naquele que estava a ser o mais difícil período da sua curta vida. Encostou-se à parede e acendeu o isqueiro. A chama bruxuleante por causa do vento, o emblema da Bic sobre o azul-escuro. A voz da filha na noite anterior a pedir-lhe para não fumar mais, que podia morrer, e ele a responder-lhe que era difícil, que não conseguia. Pensou de novo no rapaz e sentiu-se envergonhado pela sua própria fraqueza, perdendo na comparação. Mas não o suficiente. Esse não seria ainda o último cigarro.  

Bicicletas

por João Leal, em 19.01.17

O seu olhar cruzou-se com o vídeo no telemóvel do rapaz sentado em frente. Ela tinha-o visto há dois dias no trabalho, durante a hora de almoço. Achou curioso os dois partilharem agora a mesma informação acerca de uma bicicleta que se equilibra sozinha. Ela sabia-o e ele não. Aquilo era uma vantagem? Não percebia como poderia ser usada. O rapaz saiu na estação seguinte. Tinha uma mochila vermelha, camisola azul escura e vestia calças a meio do rabo, deixando ainda à mostra a roupa interior depois de as puxar para cima. Ela nunca mais o veria, até porque não o reconheceria se se viessem a cruzar. A vantagem eclipsara-se na Amadora.

Penne

por João Leal, em 18.01.17

A mulher olhou para as massas amontoadas no prato. Penne com atum, grão e espinafres. Talvez houvesse espaço para ela dizer ao marido que hoje o dia tinha sido cansativo. Desafios mentais, contratempos, a velha animosidade da chefe, uma corrida contra o tempo para o serviço expresso levar uns envelopes importantes. Quantas massas estariam ali? Seria correcto chamar-lhes massas? Uma delas seria uma massa? Penne. As crianças falavam de desenhos animados. O marido dava a sopa ao bebé. Colher atrás de colher até à derrota final pela inevitável birra. Quanto custaria cada uma e quanto representariam em tempo diário no emprego? Quantas células de Excel valeriam? Penne. Espetou algumas. Soube-lhe bem.

Educação

por João Leal, em 17.01.17

Caminhou com a menina pela mão pelo pequeno pátio. À porta do edifício, a educadora recebeu a criança que, ao largar a mão materna, começou a chorar. Mãe e filha tinham estado juntas em todos os dias dos últimos três anos. A mãe acenou-lhe, tentando tranquilizá-la com uma frase que assegurava que a iria buscar daí a um bocadinho. Encaminhou-se para a saída, resistindo ao instinto de corresponder ao chamamento da cria e de voltar atrás e resgatá-la aquela estranha que a segurava. Enquanto se afastava, também ela ia a chorar. Ambas eram impotentes. A vida ditava que a primeira traição que a criança sofreria lhe iria ser imposta pela mãe.

Cambalear

por João Leal, em 16.01.17

Os recém-casados estavam bem, pareciam felizes. O noivo, que era seu primo, estivera um pouco à conversa com ele, referindo algumas vezes o preço exorbitante da festa. Depois afastara-se, juntando-se ao seu grupo de amigos. O vinho na voz de um outro familiar, conhecido em segredo por todos pelo seu casamento desastroso e cheio de brigas, comentou “Quem é que se casa tão novo, afinal?”. Estavam junto à piscina, para onde ele tinha ido para telefonar longe do ruído festivo. “Disse-lhe para não ter filhos. Ao menos isso. Para não ficar preso, não vá mudar de ideias.” A banda iniciava o bailarico. Cambaleando, o pai do noivo afastou-se para ir dançar.  

Escorrega

por João Leal, em 13.01.17

Elisa subia mais uma vez pelo escorrega insuflável gigante. O parque da cidade estava cheio de gente a aproveitar o sábado de sol e de rulotes de farturas, bancas de pipocas, divertimentos para os mais pequenos e tasquinhas regionais. No palco uma senhora cantava canções folclóricas acompanhada por um conjunto de acordeonistas. Elisa começou a subir pela terceira vez as escadas laterais ao escorrega. Ao chegar ao topo, olhou para baixo à procura da mãe. Esta acenou-lhe. Observou ainda os outros pais e avós, de telemóvel na mão, preparados para filmar a descida dos seus filhos e netos. A mãe era a única que não tinha um. Sorria-lhe, feliz e bonita.  

Nostalgia

por João Leal, em 12.01.17

Um dos seus sonhos de adolescente: conduzir o próprio carro à noite. Era aquilo que estava a acontecer enquanto deslizava pela estrada quase deserta. Os candeeiros de luz amarela a correrem dos lados. Noite quente. Janelas abertas. Começavam agora os Dire Straits e ele a cantar a letra. Uma felicidade estranha acompanhou o seu reencontro com aquela música antiga. Ainda sabia a letra toda de cor. Estava na posição oposta à da sua adolescência, tão sofredora, incapaz de esperar pela autonomia. E, no entanto, a sua estação de rádio preferida era dessas de êxitos antigos, daquelas que ensinam que nunca mais se sente o mundo como antes de se ser adulto.