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111 Palavras

Os dias contados em 111 palavras

Conforto

por João Leal, em 23.02.17

A menina apareceu junto à sua cama às quatro e meia da manhã. Ele levantou-se, pegou-lhe ao colo e ela abraçou-o, recostando a cabeça no seu ombro. Levou-a para a sua cama, aconchegou-a e foi fumar um cigarro à janela da sala. Daí a umas horas, no emprego, iria ter uma reunião difícil, mas, por enquanto, o moinho de pás metálicas da quinta abandonada chiava a pequenos golpes de vento. Os vultos das árvores ondulavam num murmúrio de ondas a chegar lentamente a uma praia. Um estorninho pousado numa antena desafiava um outro mais longe, num diálogo de muitos sons diferentes. O conforto do abraço da sua filha de três anos.

Contas

por João Leal, em 22.02.17

Já passava das 11. Estava cansada. Tinha perdido a novela. O Luís Miguel teria dito que sim à Mina? Aquilo da Caetana o querer matar tinha-a apanhado de surpresa. Olhou em volta. Eram 10 mas só estavam 5. A Graciosa, a Amélia e a Guilhermina estavam na terra. O Sr. Francisco deveria estar no monte e a Gabriela com a filha. Conheciam-se desde1976. Sempre se deram bem. Tinham visto crescer os filhos uns dos outros. Tentou concentrar-se, mas era difícil. Demasiados gritos para o seu gosto. Aquele rapaz novo do terceiro direito hoje estava calado. Tinha trazido uma advogada para confrontar o homem da empresa de condomínios por causa das contas.

Força

por João Leal, em 21.02.17

Espantado, lera nessa manhã que a Gravidade era a força mais fraca do Universo. E, no entanto, ali estava ela a fazer cair uma mulher entre a zona das caixas e a saída do supermercado. De meia-idade, só conseguiu levantar-se com ajuda. Ele lembrou-se de uma sua queda e reparou que já não caía há anos. Outros dois episódios lhe ocorreram: um passado na infância mais precoce e o outro, já trintão, em frente da mulher por quem estava então apaixonado. Sabia que tinha caído mais vezes, mas não se lembrava de nenhuma delas. Era curioso como a Memória era parecida com a Gravidade: parecia tão forte e era tão fraca.

Esperar

por João Leal, em 20.02.17

Observou-o no quarto escurecido. Dormia. Fora uma espera longa, ansiosa. Os minutos tinham-se demorado, pesados como chumbo, como a encosta de uma montanha quase demasiado íngreme para ser subida. Pela janela, ela via o sol ainda só um risco sobre o horizonte. No dia anterior tinha chovido. Fechou os olhos. Abanou a cabeça, como que querendo repelir um qualquer inseto invisível que a incomodasse. Era difícil voltar a esse momento em que a normalidade se deixara enganar pelo inesperado e soçobrara. Permitiu-se sentir o silêncio do hospital. Perdera o controlo do carro num lençol de água. Ambulância. Operação. Espera. O seu filho tinha sobrevivido e ela agora podia continuar a viver.  

  

Função

por João Leal, em 17.02.17

Caíra nas malhas de um aniversário forçado. Empurravam-lhe a idade para a frente. A mais velha começava a Faculdade e a do meio começava o quinto ano. O mais novo entrava para a primária. Apercebeu-se, pela primeira vez, de que uma colega de trabalho podia ser sua filha (os pais dela tinham a sua idade). Cada vez mais calado, reconhecia que havia poucas coisas relevantes que pudesse dizer. Os entusiasmos eram mais espaçados. As paixões por assuntos ou projetos tinham-se ausentado da festa com classe, de mansinho. Começava a apreciar as rotinas do fim de semana. Finalmente podia considerar-se um homem adulto: era agora como sempre tinha conhecido o seu pai.

Cosmovisão

por João Leal, em 16.02.17

O marido não estava de bom humor e quisera acompanhá-la ao talho para supervisionar a compra da carne. Eram os próximos a serem atendidos. Entretanto, uma menina esperava as costeletas pedidas enquanto observava um homem e um rapazinho, acabados de entrar, a brincar aos empurrões entre risos abafados. Depois de receber o troco, a menina saiu apressada, esquecendo-se do saco com a carne em cima do balcão. O talhante disse que a menina morava no prédio ao lado e que daí a pouco estaria de volta. O marido abanou a cabeça, num gesto de censura, quando a menina, aflita, voltou a entrar. Sussurrou “São todas iguais. São todas a mesma coisa.”

Chão

por João Leal, em 16.02.17

Não sentia nem alegria nem tristeza. Funcionava bem nessa neutralidade. Era só um vazio que na verdade não a oprimia. Incomodava-a era a falta de entusiasmo. Também a vontade de chorar que aparecia de súbito e que, não tendo uma razão lógica, ela aguentava sem fraquejar. Já o sono disfuncional era mais difícil de trabalhar. Apetecia-lhe deitar-se muitas vezes durante o dia: no chão do restaurante onde trabalhava, no comboio, no parque infantil ou no corredor de sua casa. Juntava forças e só se permitia fazê-lo no sofá já depois do jantar, onde ficava até ao novo dia. Netflix. Seria uma depressão, disseram-lhe, mas ela não podia ficar deprimida. Tinha responsabilidades. 

Sufoco

por João Leal, em 14.02.17

Não era fácil livrar-se daquele tique da mente. Quando ouvia alguém falar, ia registando palavras, contabilizando-as. O alarme, um desconforto, surgia quando as pessoas se repetiam muito. Como por exemplo a sua colega, que tinha de ouvir falar ao telefone no emprego, “sendo que”. A sua mulher, “razoável”. A sua filha, “literalmente”. Era pior quando acontecia com expressões. O dono do café, “frei de espada à sintra”. O seu chefe, “fogo à peça”. O seu primo, “estás a ver ou não?”. Tinha aprendido que os outros se sentiam ofendidos quando ele lhes fazia notar um desses tiques nos seus discursos. Aprendeu a sofrer sozinho, acumulando repetições alheias que se iam empilhando.

Glória

por João Leal, em 13.02.17

Não sabe o seu nome. É revisor nos comboios da linha de Sintra e por isso ela vê-o de vez em quando. Lembra-se dele naquela festa em que a banda do Tonito atuou. Este rapaz, nesses finais dos anos 80, era o baixista. Conhecia-o também da escola, como membro da Associação de Estudantes, membro da elite de clube privado que passava as tardes a jogar snooker na sala do Pavilhão de Eletrotecnia cedida pelo Conselho Diretivo. Parecia mais feliz nessa altura. Baixo, magro, enfiado num uniforme cinzento debruado a verde que lhe assenta mal, agora o seu olhar parece o de alguém que viveu os seus dias de glória cedo demais.

Rainha

por João Leal, em 10.02.17

Convencera-o, com um beicinho, que lhe fosse comprar pipocas e agora tinha ficado sozinha na sala. No ecrã passava publicidade muda. O silêncio naquele espaço enorme e vazio incomodava-a. Pensou em ir ter com ele, mas não queria dar parte de fraca. Afinal, era só a segunda vez que saíam. Não queria estragar tudo. Imaginou então que surgia alguém de detrás e a apanhava. Levantou-se abruptamente, aterrorizada, e quase correu para a porta. Não chegou a sair. Pegou no telemóvel, ajeitou o cabelo e tirou uma fotografia. Nas redes sociais surgia agora sorridente com a sala vazia em fundo e com o comentário “Luxo. Cinema só para mim. Feeling the Queen!»

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