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111 Palavras

Os dias contados em 111 palavras

Espetáculo

por João Leal, em 30.03.17

A colega perguntou-lhe se percebia de telemóveis e mostrou-lhe o ecrã do iphone com uma fotografia sua com um cão ao colo. Queria colocá-la no mural, porque o seu bebé, o cão de pelo encaracolado, tinha feito anos. Era uma pessoa nervosa com longo histórico de depressões. Usava o cabelo pintado de louro, roupas caras, o marido conduzia um BMW de executivo e o filho já tivera asperger, crises de ansiedade, hiperatividade, indícios de diabetes e tinha sido uma criança índigo e sobredotada. Ele respondeu-lhe que não percebia de telemóveis. Ela pareceu não o ouvir e disse que queria tornar a fotografia mais bonita, espetacular, e perguntou-lhe se conhecia alguma app.

Brancura

por João Leal, em 29.03.17

Lembrou-se então melhor. A estrada de pó branco levantado à passagem dos pés. As cigarras cantavam nas árvores, vigilantes. A erva ressequida e amarela, imóvel em direção ao céu sem nuvens, como numa prece à espera de chuva que, na melhor das hipóteses, só chegaria quase dois meses depois. A canícula das duas da tarde havia recolhido as pessoas para o interior fresco das suas casas caiadas. Só eles os dois pareciam habitar o mundo enquanto se dirigiam para o café à beira da estrada. Iam falando enquanto caminhavam. A boca seca de pó degustando em imaginada antecipação a imperial gelada. Tinham sido bons tempos, esses passados no Alentejo naquele agosto.

Sobremesa

por João Leal, em 27.03.17

O reencontro foi o de velhos amigos. Tinham passado cinco anos e ela parecia-lhe a mesma pessoa. O mesmo sorriso, os mesmos modos cheios de humor. Ainda aquela luminosidade que, na verdade, sempre o incomodara. Bem vistas as coisas, tudo se tinha tornado mais difícil para si desde que rompera a relação com ela. Referiu-o à sobremesa. Encantadora, agradeceu o elogio e depois lembrou-lhe a situação que levara a que tivesse decidido sair de casa. Afinal, fora ela que quisera acabar tudo e não ele. Surpreendido, lembrou-se e uma raiva antiga cresceu no seu peito, alimentada por uma traição que ele, afinal, tudo fizera por esquecer. Quase que o conseguira. Quase.

Coração

por João Leal, em 23.03.17

Tinha sido apanhada desprevenida. Deu uma corrida depois da passagem de um autocarro amarelo e atravessou a avenida. O céu cinzento antecipava o entardecer. Fazia frio e a chuva esparsa, de gotas grossas, enregelava-lhe a testa. Caminhou colada aos prédios sujos, aproveitando a proteção das varandas. Uma rapariga de uns 15 anos estava sentada numa arcada, costas contra a parede de cimento. Tinha cabelo preto, os lábios pintados, camisola branca e calças azuis. Chorava, a luz branca do telemóvel riscando-lhe as faces com o rasto das lágrimas. Soube que não valeria a pena perguntar-lhe se precisava de ajuda. De algum modo, sabia que se tratava de um assunto do coração.

Justiça

por João Leal, em 21.03.17

Como era hábito levantara-se às 5, fizera café e sentara-se à secretária para escrever. Só teria de sair para o emprego às 8 e meia. Andava à volta daquela história há quase um ano. Depois de ler o que tinha escrito no dia anterior, sentiu-se descrente como nunca. Pensou em desistir, mas depois teve pena de não saber mais sobre o enredo. Andava com aquela gente há demasiado tempo na cabeça. Conhecia as personagens, mas queria conhecê-las ainda melhor. Não as queria injustiçadas pela sua preguiça. Elas mereciam mais. Riu-se destas suas reflexões mítico literárias. Pareciam tiradas de entrevista de escritor consagrado. Na verdade, escrevia porque lhe dava gozo, só isso.

Maior

por João Leal, em 20.03.17

Pensava estar preparado, mas, afinal, fora apanhado desprevenido à mesma. A sua filha mais velha fizera 18 anos no dia anterior e ele sentia-se estranho. Ali estava ela, na sua mente, a aprender a andar de bicicleta com ele a correr atrás. Ali estavam os dois em conversas longas de telemóvel durante uma adolescência cheia de dúvidas. Ali estava, pequenina, sentada à mesa e recusando o jantar numa birra. Os dois, de lágrimas nos olhos, tocando guitarra. Zangada, encantadora, desligada, atenciosa, bonita, artista, desastrada, capaz, focada, crescendo, preparando quem agora era, cheia de planos para o futuro. Ela era uma adulta e também ele tinha acedido agora a uma nova maioridade.

Liberdade

por João Leal, em 17.03.17

Ao início sentira alívio e felicidade por acordar sem ele. A novidade, porém, diluíra-se nos meses que entretanto se haviam passado. A sensação de liberdade parecia agora menos importante do que a solidão. Saiu para a rua, bebeu um café e tomou o seu lugar na fila para o autocarro. Não sentia falta dele, isso era certo. Sentia era falta de companhia. Enquanto esperava, olhou para um grande outdoor da Câmara Municipal onde uma mulher, que não conhecia, dizia «A Verdade nesta cidade inspira-me». Um outro cartaz, este de uma operadora de internet com a fotografia de um cão, informava-a que «A felicidade é ter wifi até 4 x mais rápido».

Farol

por João Leal, em 15.03.17

Para o Castor

 

Das suas amizades de juventude, ele era o único com que tinha mantido contacto ao longo dos anos. Já lá iam 30. Sim, isso era espantoso. Conseguia delinear cada uma das fases das vidas de ambos, as mudanças de rumo, que já haviam sido tantas, as crises e as vitórias. Era por isso que, talvez com exceção da sua mulher, este seu amigo era a única pessoa que ele realmente ouvia, que o podia contradizer, dizer-lhe que estava errado, chamar-lhe a atenção para um passo em falso ou fraco julgamento. Ele tomava as palavras do outro com o mesmo peso que tinham para si os seus pensamentos. Era como um farol.

Marcador

por João Leal, em 14.03.17

Parou para ler o que estava escrito a marcador na lateral metálica da escada rolante. Traços apressados: ”Um dia destes mato alguém”. Era uma mensagem terrível para uma manhã fresca e luminosa como aquela. Imaginou um jovem negro. Uma mente a rebentar de frustração ou de tédio. A mão rápida, apressada pela possibilidade da chegada de alguém. Perguntou-se se aquelas palavras não seriam a semente de uma futura notícia nos media acerca de um crime. O que o incomodava não era o sentido, mas a ausência de pontuação no final da frase. Parecia que quem escrevera aquilo estava calmo e sereno. Pensou. Pegou num lápis e acrescentou um sinal de interrogação.  

Companhia

por João Leal, em 13.03.17

Trabalhara até perto das duas da manhã e terminara a tarefa. Deitou-se sabendo que iria conseguir entregar o trabalho. Na manhã seguinte, enquanto esperava junto à rececionista, só com muito esforço conseguiu lembrar-se dos detalhes que deveria realçar quando falasse com o cliente. Uma bola espessa e negra parecia embotar-lhe o raciocínio. Era um desânimo físico de falta de sono e de excesso de concentração nos dias anteriores. Detestava sentir-se assim. Pegou no telemóvel e ligou à mulher. Disse logo de início que lhe estava a telefonar só para a ouvir. A chamada terminou com a secretária do cliente a aparecer. Já no elevador, sorria, agradecido, ao pensar no seu casamento.       

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