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111 Palavras

Os dias contados em 111 palavras

Sufoco

por João Leal, em 14.02.17

Não era fácil livrar-se daquele tique da mente. Quando ouvia alguém falar, ia registando palavras, contabilizando-as. O alarme, um desconforto, surgia quando as pessoas se repetiam muito. Como por exemplo a sua colega, que tinha de ouvir falar ao telefone no emprego, “sendo que”. A sua mulher, “razoável”. A sua filha, “literalmente”. Era pior quando acontecia com expressões. O dono do café, “frei de espada à sintra”. O seu chefe, “fogo à peça”. O seu primo, “estás a ver ou não?”. Tinha aprendido que os outros se sentiam ofendidos quando ele lhes fazia notar um desses tiques nos seus discursos. Aprendeu a sofrer sozinho, acumulando repetições alheias que se iam empilhando.

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